Depoimento: Maria Cristina Isnard

Assistente social, viveu na Montanha de 1996 a 2000

Hoje, em 2026, confirmo que os momentos vivenciados em São Thomé, há 30 anos, enriqueceram minha vida em forma de várias experiências e desafios que me serviram de crescimento pessoal e espiritual. Em 1996 senti um chamado para ir morar em São Thomé das Letras (MG). Foi uma experiência incrível e desafiadora viver em comunidade, onde tive a oportunidade de agregar conhecimentos diferenciados e importantes para minha vida. Tanto que em 2022 escrevi e publiquei um livro, concluído após anos de relutância, onde relato a andança que vivenciei na Montanha, um mergulho profundo na coragem por experienciar uma realidade totalmente desconhecida e enlouquecida, baseado em fatos reais.

A seguir, trecho do livro A Jornada da Alma, de Maria Cristina Isnard; publicado com sua autorização.


“A Montanha, quando lá cheguei, era um lugar onde não havia eletricidade e tínhamos água disponível através de mangueiras emenda- das que, frequentemente, se soltavam, sendo necessário buscar o local do acidente a fim de restaurá-la. O percurso dessas mangueiras até a nascente era longo e de difícil acesso. A nascente era um local chamado bica, onde havia uma única torneira e uma caixa d ́água. Ali, lavávamos as roupas, que eram transportadas em baldes. O difícil era o retorno levando o balde pesado, cheio de roupas molhadas, a fim de serem estendidas no varal de minha casa. A bica abastecia toda a Montanha através das referidas mangueiras.

A característica da Montanha era sua aridez e a dificuldade de locomoção, uma vez que não existiam caminhos e, sim, trilhas. Tudo muito rudimentar e certos trechos muito perigosos, principalmente quando chovia, pois era tudo terra. As casinhas construídas eram todas de apenas um cômodo. A Montanha contava com dois banheiros coletivos, bem simples, a cozinha comunitária, construída com pedras. A simplicidade era a tônica da Montanha.

Nas manhãs, todos que compartilhavam aquela comunidade se encontravam para assistir ao nascer do sol. No final da tarde, nos reu- níamos na Praça do Tao, para presenciar o pôr do sol, quando era lido um poema do Tao e comentávamos o tema. Aquele local, como todos da Montanha, era uma área que se destacava pela austeridade e total falta de conforto. Sentávamo-nos em pedras ou no chão. Quando chovia, cada um levava seu pedaço de lona plástica e nos acomodávamos sobre a lama. Apesar da total falta de comodidade, era um lugar bonito, com árvores (não frondosas) que as crianças gostavam de escalar.

Na Montanha, vivenciávamos o TAOÍSMO: ‘da cultura chinesa, doutrina mística e filosófica formulada no sec. VI A.C. por LAO TSÉ que enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial, por meio de uma existência natural, espontânea e serena’.

Na Montanha, o sistema de refeições também se destacava pe- la simplicidade. Eram servidas quatro refeições ao dia: café da manhã, almoço, lanche e jantar. Fazíamos quatro pães enormes na manhã, uti- lizados para alimentar toda a comunidade, sendo servidos também no lanche. O cardápio não apresentava variações. Constava sempre de arroz, feijão, salada e verduras/legumes cozidos. Apenas aos domin- gos, havia carne moída, devido a uma atividade proporcionada para as crianças. Essa ação chamava-se DOMINGO MONTANHA. Buscávamos as crianças da cidade e da área rural, a fim de passar o dia na Montanha, quando realizávamos atividades recreativas e educativas; oferecíamos almoço e, após o lanche, as levávamos de volta às suas casas.

O sustento da Montanha, no geral, ocorria através do trabalho do xamã (consultas, atendimentos, cursos) e doações. Semanalmente, era realizada, na praça principal da cidade, a FEIRA DE TROCAS. Trocávamos roupas e objetos recebidos em doação por mantimentos, tais como leite, legumes, verduras, frutas e outros. Para atender também aos moradores da roça, transportávamos, de carro, roupas para efetuar trocas.

Cada dia da semana, um residente ficava a cargo da cozinha. A pontualidade era imprescindível. Não havia ajudante algum. Cozinhávamos para cerca de 25 pessoas em fogão à lenha. Tocava-se o sino para avisar que a refeição seria servida. Formava-se fila e ao cozinheiro de plantão cabia servir cada pessoa. Os visitantes adaptavam-se ao sistema de funcionamento da cozinha, sem diferenciação alguma. Ao término, cada um lavava seu prato e talheres num tanque. Normalmente, as panelas (enormes) eram lavadas pelo encarregado do dia e, raramente, havia ajuda, pois as outras pessoas já possuíam suas próprias tarefas.

Certa noite, assistíamos notícias sobre o Vietnã. Uma das crianças perguntou algo sobre esse país. Ao findar a notícia, fomos todos à biblioteca, pegamos enciclopédias e alguém leu em voz alta tudo sobre o Vietnã; seu sistema econômico, social político, religioso, cultural etc. e procurávamos, no mapa, sua localização.

Após algumas semanas, a TV foi retirada da cozinha. Nessa época, havia um gerador que funcionava das 18hs às 22hs. Todos os moradores da Montanha eram voluntários e nos ocupávamos, igualmente, das crianças e adolescentes. As funções, como apanhar lenha, era obrigação de todos.

Certo dia acompanhei uma colega (bióloga) que passeava pela Montanha com as crianças da creche e, ao avistar uma borboleta, todos pararam e ela ministrou uma aula sobre borboletas. O mesmo aconte- cia quando encontravam insetos, minhocas etc., além de plantas me- dicinais. Tudo acontecia de forma natural, aproveitando o que ocorria no momento presente. Aliás, a tônica do movimento na Montanha era viver o Presente!”





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