Parte del libro «Amor ao teatro: Sábato Magaldi», por Sábato Magaldi, sobre el montaje «A Caixa de Cimento».
Teatro Ruth Escobar, San Pablo, 1980.

A CAIXA DE CIMENTO — 21/09
Dir. Juan Uviedo
A caixa de cimento, novo cartaz da Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar, reunia uma porção de circunstâncias indicadoras de um grande espetáculo: a peça de Carlos Henrique de Escobar havia ganho o segundo prêmio no Concurso Nacional de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, em 1977, quando Bodas de papel, de Maria Adelaide Amaral — vencedora do Prêmio Molière do ano passado — nem figurou entre os textos escolhidos para publicação ou leitura pública; o diretor argentino Juan Uviedo vem precedido de muitas realizações, dos Estados Unidos à Polônia; o elenco inclui diversos nomes de valor; e, mais uma vez, a atriz-empresária Ruth Escobar esmerou-se na produção, em que o carinho e os gastos não devem ter ficado distantes das montagens de Cemitério de automóveis, O balcão, A viagem e A torre de Babel.
É com dor no coração, por isso, que o crítico se vê forçado a discordar de tudo. A leitura da peça já me decepcionara por inteiro (nem a interdição da Censura, agora levantada, conseguiu convencer-me de que havia alguma curiosidade em jogo). Parece que o encenador, não acreditando na eficácia do texto, tentou lançar poeira nos olhos do público e fez uma parafernália em que a gratuidade é o elemento preponderante. O resultado não poderia deixar de ser uma recusa global.
A própria edição de A caixa de cimento aparenta a Mãe Coragem, de Brecht. Fernando Peixoto afirma que “seria injusto recusar a inevitável e fascinante aproximação” entre as duas peças. Tenho uma visão menos otimista: sinto que o autor brasileiro estragou Mãe Coragem. Na obra de Brecht, a guerra é palpável, uma presença real e aterradora. Mãe Coragem move-se no concreto e as agruras da guerra roubam, um a um, os seus filhos. A guerra alimenta o comércio de Mãe Coragem e, ao mesmo tempo, lhe subtrai a posteridade.
Carlos Henrique muda o cenário da guerra para um país imaginário, dominado pela repressão e pela tortura. Longe de mim desejar o realismo, já que o texto se vale de simbologia. O problema é que os símbolos não convencem nunca. Eles permanecem abstratos, falsos. A ação não engrena e a presença do poder é cerebral, lembrando uma trama insatisfatória de ficção científica.
Os episódios são tão mal escolhidos que há o risco de se justificar a repressão… O poder mostra as suas garras porque tanto a Mãe havia roubado (tendo, em consequência, amputado um braço), como dois de seus filhos roubam. Um se alista no Exército e, além de desertar, furta. A peça nem estabelece um vínculo entre a necessidade de roubar, por miséria, e o regime político vigente. Assim, a punição, embora não nos termos criminosos adotados, parece explicar-se.
Até do ponto de vista ideológico A caixa de cimento não supera a confusão. Nada convence. Os personagens, as situações e o desenvolvimento da trama revelam que o autor não tem o menor domínio dramatúrgico para tentar uma empreitada tão ambiciosa. O diálogo é frouxo e os monólogos não apresentam substrato dramático. Às vezes aventura-se uma aparente ousadia, de fundo sexual. Ela não encobre mais do que a ingenuidade. Vejo A caixa de cimento apenas como um lamentável equívoco.
Fico pensando se o texto não é um produto da Censura. Não tivesse a Censura sido tão arbitrária e obtusa nos últimos anos, provavelmente Carlos Henrique escreveria o texto em outro estilo, poupando-se esse erro. E, se por incompetência cometesse o erro por deliberada escolha, um júri não influenciado pelas condições adversas dificilmente o distinguiria. E, por último, sem uma revisão radical, nenhum elenco o encenaria. Agora que A caixa de cimento chega naturalmente à plateia, vê-se na prática o mal causado por tantos anos de Censura.
Haveria outra linha para a encenação? De fato, não aprecio o estilo “poeira nos olhos”. A vista do espectador é solicitada por estímulos tão variados que a atenção se dispersa. Quando se trata de montagem, sobretudo visual, nada há o que reclamar. A caixa de cimento, na escola de seu inspirador Bertolt Brecht, pretende levar o público ao raciocínio.
No espetáculo de Juan Uviedo, a função crítica fica mergulhada no convite à magia. E essa magia mobiliza uma série de recursos a que estamos acostumados há uma década, desde o primeiro ritual de Victor Garcia.
A concepção, discutível na origem, está bem apoiada nos cenários e figurinos de Naum Alves de Souza, que a servem de forma exemplar. O espaço cênico procura envolver a plateia e os grandes bonecos sugerem a esmagadora estatura do poder. Coerente com a linha do espetáculo, o visual “distrai” o público do texto. Cabe perguntar: se não se acredita no que se diz, por que dizer?
A grandiloquência da montagem esmaga os atores. Nunca vi João José Pompeo, Assunta Perez e Rafael de Carvalho tão tímidos, com dificuldade para se projetarem até a plateia. Ruth Escobar adotou um falsete na voz que tira a autenticidade de seu desempenho. Ana Cerqueira Leite e seus três irmãos têm atuação simples e comovente.
Ruth Escobar fez um projeto sério e exigente de organizar uma companhia de repertório. Vários textos estarão em alternância no cartaz. Como Ruth nunca foi medíocre, espera-se que a iniciativa se torne um acontecimento em nosso teatro.


