A Montanha

A Montanha do Juan

Localizada no alto de um morro no bairro do Cantagalo, em São Tomé das Letras (MG), a chamada “Montanha do Juan” foi um espaço de convivência comunitária criado por Juan Uviedo e um grupo de co-fundadores a partir do final da década de 1980. Ali também funcionou a sede da Associação Comunitária Viva Criança, reunindo atividades voltadas a crianças, jovens e famílias da região.

A compra e ocupação do terreno começaram em 1989, após a chegada de Juan à cidade e um período de reorganização de sua vida no Brasil. O terreno foi adquirido gradualmente, em diferentes etapas, já que pertencia a proprietários distintos. O primeiro lote comprado foi o topo da montanha; em seguida, foi incorporada a área da nascente principal que abasteceria a comunidade.

A criação da Associação Viva Criança e a ocupação da Montanha aconteceram de forma paralela, reunindo pessoas interessadas em desenvolver uma experiência coletiva de vida, trabalho comunitário e convivência integrada à natureza.

Estrutura e ocupação

“Começamos do zero; era uma montanha pelada sem construções, sem energia elétrica, sem estrada; uma ilha no topo rodeada de nuvens.”
— Flávia KLC

A Montanha começou em um terreno sem energia elétrica ou estrada de acesso. No começo, as condições eram precárias. Não havia eletricidade nos primeiros anos e a água chegava por mangueiras conectadas a uma nascente localizada em um ponto conhecido como “Bica”, onde também havia uma caixa d’água e uma única torneira utilizada coletivamente.

Os primeiros moradores construíram suas próprias casas, organizaram cozinhas coletivas e estruturaram, de forma gradual, os espaços de uso comum. As moradias eram pequenas, geralmente compostas por apenas um cômodo, e a circulação acontecia por trilhas abertas no morro, muitas delas difíceis de atravessar em períodos de chuva.

A primeira construção comunitária de maior porte foi a chamada “Cozinha 1”, erguida no início de 1990 com trabalho coletivo, doações e arrecadações feitas pelos próprios moradores. Com o passar do tempo e a chegada da energia elétrica, novas construções foram surgindo gradualmente. A Montanha chegou a ser dividida em diferentes áreas comunitárias conhecidas como “cozinhas”, cada uma com funções específicas.

Conforme relata Flavia: “Na Cozinha 1 estavam o refeitório, os banheiros e o catavento. Na Cozinha 2, a biblioteca, a escola e a sala de música. Na 3, um campo de plantas medicinais e uma área destinada a práticas ritualísticas. Na Cozinha 4 instalou-se mais tarde a creche, em uma área de águas muito próxima à estrada, de fácil acesso, onde também se realizavam comemorações com participação da comunidade. Na 5 se instalaram moradores ligados a práticas de rezas e curas tradicionais. A 6 era um local reservado, utilizado para retiros e períodos de jejum. A 7 correspondia ao topo da Montanha e ao que hoje é conhecido como “centrinho”.

Cozinha 1

Cada um tinha seu lugar e sua barraca. Nos encontrávamos na cozinha para as refeições e para as aulas. Tomávamos banho frio na bica; era uma fila de maiôs e toalhas, e andava rapidinho. Para os mais pequeninos, esquentávamos água no fogão e dávamos banho de caneca.

Com o passar do tempo e a chegada da energia elétrica, começamos a fabricar blocos de cimento, fazendo inclusive campeonatos de quem fazia mais blocos por dia. A proposta era que cada um fizesse seu próprio quarto; assim surgiram as construções individuais. Nesse que eu chamo de ‘segundo tempo’, nos propusemos a ocupar a Montanha e nos espalhamos”. 

Rotina e convivência

O cotidiano era organizado de forma compartilhada entre os moradores, todos voluntários. Cada dia da semana, uma pessoa ficava responsável pela cozinha, preparando refeições em fogão à lenha para cerca de 25 pessoas.

A alimentação era simples e baseada principalmente em arroz, feijão, legumes, verduras e pães, que eram preparados diariamente. Parte do sustento da comunidade vinha dos atendimentos terapêuticos e cursos ministrados por Juan, além de doações e trocas realizadas na cidade.

Sustento

Semanalmente, era organizada uma feira de trocas na praça principal de São Tomé das Letras. Roupas e objetos recebidos em doação eram trocados por mantimentos como verduras, frutas, leite e outros alimentos que abasteceriam a Montanha.

Segundo relato da Flávia: “Uma vez fomos a Sobradinho de Minas (bairro mais afastado, a 18 km) e lá o povo só tinha abóboras para trocar. Saímos de lá com a Toyota cheia de abóboras, e esse foi nosso alimento — arroz, feijão e abóbora — durante 49 dias!!! Santa abóbora, Batman! Juan também aceitava alimentos em troca do seu trabalho. Uma vez apareceu com um caminhão de bacalhau que ocupou dois latões daqueles antigos, de 200 litros cada… Comemos bacalhau o ano todo.”

Filosofia

A rotina da Montanha também era atravessada por práticas coletivas inspiradas no taoismo, filosofia frequentemente discutida por Juan junto aos moradores.

Poema de Juan Uviedo

Pela manhã, parte da comunidade costumava se reunir para assistir ao nascer do sol. O planejamento e distribuição das atividades do dia aconteciam coletivamente nas primeiras horas da manhã.

No fim da tarde, os encontros aconteciam em um espaço conhecido como Praça do Tao, onde eram feitas leituras, conversas e reflexões coletivas.

Além das tarefas cotidianas, outras atividades frequentemente aconteciam de forma espontânea. Caminhadas, observação da natureza e conversas coletivas faziam parte da dinâmica do espaço, muitas vezes conduzidas por moradores com diferentes formações.

As regras de convivência podiam ser resumidas em um aviso colocado na porta da cozinha:

“Você abriu? Feche!
Acendeu? Apague!
Ligou? Desligue!
Está usando algo? Trate com carinho!
É de graça? Não desperdice!
Ofendeu? Peça desculpas!
Quebrou? Conserte!
Não sabe consertar? Chame quem ajude!
Não lhe perguntaram? Não dê palpite!
Não veio para ajudar? Não atrapalhe!
Seguindo estas regras viverás melhor…”

Circulação e convivência

A Montanha passou a funcionar como sede das atividades da Associação Comunitária Viva Criança. O espaço recebia crianças para recreação, atividades educativas e convivência aos domingos, férias e feriados.

Em determinados períodos, também acolheu pessoas em situação de vulnerabilidade ou atravessando momentos difíceis.

Ao longo dos anos, o espaço reuniu não apenas moradores locais, mas também pessoas vindas de outras regiões do Brasil e da Argentina, muitas delas ligadas a experiências anteriores de trabalho com Juan.

Havia moradores permanentes e temporários. 

  • Os moradores da Montanha (os chamados Montanheses); 
  • Associados que permaneciam temporariamente durante o processo de algum projeto; 
  • Voluntários vindos de outras cidades para alguma atividade específica 
  • Vrianças atendidas pelas atividades da Associação.

Essa circulação contribuiu para a formação de um ambiente heterogêneo, marcado pela troca de saberes, práticas comunitárias e convivência entre diferentes gerações.

Legado

A Montanha do Juan se consolidou como um espaço de referência na cidade, tanto pela experiência de organização coletiva que propunha quanto pela convivência comunitária desenvolvida ao longo de décadas.

Mais do que um local físico, funcionou como um território de encontro, circulação de pessoas e experimentação de modos de vida comunitários, deixando marcas na trajetória de moradores, colaboradores e visitantes.

Ver: Associação Comunitária Viva Criança